Não é só em Portugal que os leilões de um conjunto de bens a que chamaremos de "coleccionáveis" estão a deixar de utilizar as placas com um número para dar lugar privilegiado às conveniências dos leilões online. As grandes leiloeiras de referência - Sothebys ou Christies, só para citar as duas gigantes mundiais - optam cada vez mais pela venda das obras dos seus clientes através dos seus sítios na internet. Nós não tomamos partido, cada uma tem as suas virtudes.

Num mundo tão digitalizado como o nosso onde o contacto pessoal chega a ser desnecessário, recordar velhas formas de venda em leilão traz à memória a riqueza de nos vermos uns aos outros, da troca de experiências e até do "cambão" tão prejudicial para o leiloeiro, mas tão benéfico para o comprador.

Em Portugal não há grandes registos do que se passou nos leilões, em particular nos leilões de livros. Um deles é a memória escrita por Matos Sequeira sobre um dos mais importantes leilões de livros em Portugal, o famoso leilão Ameal.

 
Frontispício do livrinho de crónicas de Matos Sequeira
 

Propriedade do primeiro Conde do Ameal, João Maria Correia Ayres de Campos, a sua extraordinária biblioteca foi vendida por José dos Santos, tendo este publicado um catálogo que ainda hoje permanece uma enorme referência na bibliografia portuguesa. O catálogo é um interessantíssimo repositório de informações bibliográficas detalhadas, com valiosas indicações sobre a colacção, partes dos volumes, início e fim de secções em particular dos fólios preliminares, número de gravuras, falhas de numeração na paginação ou foliação, entre outras informações que não encontramos em mais lado nenhum.

 
O livreiro José dos Santos
 

O pequeno livrinho de Matos Sequeira é composto pelo conjunto de crónicas que foram publicadas de 30 de Março a 16 de Abril nas colunas de O Mundo em que dá conta, dia a dia, dos preços, bibliófilos, e demais anedotas decorridas durante este extraordinário leilão. Além dos textos, estão os desenhos de Alberto Sousa retratando os mais ilustres intervenientes, estes acompanhados de uns versos elucidativos do carácter e gostos do retratado. Deixamos aqui pequenos apontamentos desse extraordinário livrinho.

 
aspas Está aberta a praça, meus senhores, e as condições são as mesmas. São as palavras sacramentais do Esteves, que significam: falar pouco e comprar muito. [p. 19].
 

Durante grande parte da minha vida foi este mesmo discurso, repetido a cada nova sessão, por todos os pregoeiros da nossa praça que ouvi para dar inicio ao grande reboliço dos leilões. Por entre dedos em riste, para que não houvesse qualquer margem para dúvida, e discretos sinais, por vezes tão imperceptíveis que só o olhar atento (e muitos anos a ver as mesmas caras) faziam saber das suas intenções, os leiloeiros lá iam cantando o disparar de preços. 

 
aspas
Camões, com as suas obras, as Rimas, os Lusíadas, estão a avizinhar-se. O primeiro lote é o 379. A praça dá-lhe 300$00. Seguem-se edições várias, e chega-se finalmente ao 388: a 1.ª edição dos Lusíadas. Há quem ponha 1$00 e, logo a seguir, outra voz lança 10.000$00. Daí a nada está em 19.000$00. Sensação!" (ibidem)
"Desde D. António da Costa ao Dr. Patrocínio da Costa, todos os Costas do catálogo vêm à praça. Levam umas dezenas de escudos e recolhem à estante sem nenhum episódio digno de menção". [p. 29]
 

Os preços sobem de forma alucinante em alguns casos, noutros nem tanto. É isto também o encanto dos leilões, há oportunidades a espreitar a cada lote, oportunidade de enriquecer a estante com uma pechincha ou de enriquecer a estante e esvaziar a carteira.

 
aspas
Vêm à praça fólios, quartos e oitavos dos mais variados assuntos. O Sr. Agudo compra os clássicos, o Dr. Jorge de Faria os sermões e orações fúnebres, o Sr. Conde do Almarjão encadernações, o Sr. Cardoso Gonçalves e Alberto Sousa livros de arte, o Sr. Carlos Simões livros de agricultura e botânica." [p. 26]
 

E por entre um grande número de livros na praça, há títulos para todos os gostos e todos, sem excepção, com mais ou menos luta, lá vão conseguindo comprar este ou aquele título. Sabemos o nome de todos. Era um tempo, a que também assisti, em que ninguém permanecia (nem queria permanecer) anónimo. O livreiro astuto lá reparava num título que o Eng.º não tinha conseguido comprar pelo dobro do preço do seu exemplar há tanto tempo perdido na estante de baixo. Falava-lhe:

- Uma verdadeira pechincha Sr. Eng.º o exemplar que lá tenho. E muito melhor que este. Passe lá amanhã.

 
O Bibliófilo Perry Vidal, "formato in-fólio máximo"
 
aspas
Com o entusiasmo arqueológico a cadeira do Dr. Perry Vidal dá um gemido doloroso e cede. Pânico geral. O doutor ia caindo de cauda. [nota] Segungo um inventário feito pelo Joaquim Pinheiro, gerente administrativo do leilão, as cadeiras que recolheram à enfermaria vitimadas por este bibliófilo foram cinco, ficando três delas em estado grave". [p. 34]
 

Era o Dr. Perry Vidal de "formato in fólio máximo" e de aspecto "de dezoito tomos encadernados num volume só" [p. 27]. Pelo que imaginamos apenas o que devem ter sofrido as cadeiras.

 
aspas
Como ainda não é meia noite, leiloam-se mais alguns lotes, mas os olhos já doem, a atmosfera corta-se à faca, e o ar livre começa a fazer falta. Até amanhã". [p. 30]
 

Apanhei já com a organização por sessões com o número de lotes perfeitamente definido. Mais depressa ou mais devagar, só se saía depois desse número ter visto e ouvido o martelo bater. Aqui era o tempo a determinar quantas vezes o "Esteves" batia o martelo e, supomos nós, berraria para o escrivão, com mais ou menos intensidade conforme o número de escudos e o nome do feliz arrematante.

 

E deste modo, dia a dia, hora a hora, os lotes se vão sucedendo até ao último lote, apartando-se todos "com saudade uns dos outros" [p. 64], havendo uma "livraria a menos" que redunda em proveito de outras.

 

Mas "um livro vale não só pelo interesse do texto ou da raridade da edição; vale também e muito mais pela soma de comoções e de recordações que lhe andam adstritas". [p. 65].