Dez anos de uma grande Biblioteca

A Ecléctica leilões está de parabéns. Há 10 anos que apresentámos o primeiro catálogo de uma das maiores e melhores bibliotecas privadas portuguesas alguma vez reunidas. Sem falsas modéstias, esse dia 5 de Junho marcou, não só a nossa empresa, mas também a forma como os catálogos eram (e ainda são) apresentados e a história da Bibliofilia em Portugal.

Desde 1992 que nos habituámos a ver o proprietário desta extraordinária Biblioteca em todos os alfarrabistas de Lisboa, Porto, Madrid, Londres ou Paris, e em todos os leilões de livros em Portugal. Era um daqueles homens extraordinários, humilde, sempre com uma boa dose de conversa e com uma paixão única pelos livros. Uma daquelas paixões que contagia e que, para um jovem livreiro como eu era na época, transformava o homem em ídolo e modelo.

Nos leilões, para alegria dos leiloeiros e tristeza dos competidores, quando levantava a mão para licitar era quase certo que iria ganhar o lote. Obstinado, não deixava que lhe roubassem aquele lote que tanto queria, chegando por vezes à irracionalidade que todos os coleccionadores querem combater, mas à qual, em algum momento, sucumbem.

Os seus temas centrais eram a história dos Descobrimentos portugueses e a ciência e não hesitava em adquirir desde o livro mais importante, raro e valioso, até ao pequeno folheto de 500 ou 600 escudos. A sua motivação nunca foi outra que não a paixão do livro pelo livro, jamais preocupado com a valorização ou desvalorização de um qualquer título, sem qualquer arrependimento, mesmo quando comprava títulos repetidos (quem nunca).

No final da vida, passava ao final do dia pelo meu espaço na Rua de O Século várias vezes por semana. Muitas foram as horas de conversa sobre livros e pouco mais. E já cansado e idoso, algumas vezes adormeceu nos meus sofás azuis por 5 ou 10 minutos. Nunca o acordei, sabia que não eram os sofás que o descansavam, era a companhia dos livros nas estantes e isso deixava-me feliz e até invejoso.

O primeiro leilão foi ainda uma selecção feita por si, com a minha ajuda e a de seu filho. Infelizmente não lhe pude mostrar esse primeiro catálogo. Faleceu cerca de um mês antes. Fá-lo-ia com orgulho de aprendiz para mestre, eternamente agradecido.

A comemorar 10 anos, recordo esse primeiro catálogo, mostrando-o com o mesmo orgulho pelo meu trabalho e com ainda maior dose de agradecimento nas pessoas das suas três filhas e do seu filho, em especial a este último que tem acompanhado este longo e nem sempre fácil processo mais de perto.

Para comemorar estes 10 anos, nas próximas semanas iremos recordar alguns dos títulos mais marcantes (e não exclusivamente pelo valor ou importância) que pertenceram a essa Biblioteca e têm sido (e continuam a ser) vendidos quer em leilões presenciais, quer em leilões online.

Destruição de Livros

Na longa história da memória escrita, desde a escrita cuneiforme até à era digital, todos os homens e em todo o tempo lhe reconheceram o enorme valor e importância. Muitos são os testemunhos de verdadeira devoção e até sacrifício pela sua reunião e preservação para as gerações vindouras.

No entanto, nem sempre esse reconhecimento é testemunhado pela acção altruísta de quem acredita que a partilha de conhecimento e de arte é um dos passos fundamentais para a evolução da humanidade como um todo.

Momentos houve na história onde a memória escrita, em particular o livro, foi sujeito à destruição, seja provocada por quem reconhece nele o valor e importância e, por isso mesmo, o receia e deseja apagar, seja por acidentes ou como “danos colaterais”, o que quer que isso signifique.

Partilhamos convosco algumas dessas histórias de destruição de alguns registos da história e da arte da humanidade.

Nem sempre o homem foi o principal agente da destruição. Em 1666 Londres foi destruída por um devastador e misterioso incêndio. Apesar de incríveis esforços por parte de alguns, as perdas foram tais que um historiador num obra recente comparou a perda bibliográfica de 1666 com a perda da Biblioteca de Alexandria (vd. BELL, W. G., The Great Fire of London in 1666).

Entre nós, 1755 é um ano que não esqueceremos por mais séculos que passem. Lisboa via-se destruída e com ela uma grande parte da Biblioteca Real, perdida para sempre.

Neste século, é bastante conhecido o destino dado pela Alemanha Nazi a milhões de livros, a maioria de temática Judaica. A derrota da Alemanha representou uma grande vitória para o mundo, mas, como em todas as guerras, não sem custos humanos e materiais. Os livros também fizeram parte desses custos.

Na noite de 9 de Março de 1943 mais de 500 toneladas de bombas foram largadas em Munique pela Royal Air Force. Tal força destrutiva fez desaparecer cerca de meio milhão de livros da Biblioteca da Baviera, entre os quais a maior colecção de Bíblias então existentes no mundo.

Em Berlim, durante os ataques à Universidade de Berlim, cerca de 20000 volumes ficaram reduzidos a cinzas. Nos sucessivos bombardeamentos de Fevereiro e Março de 1945 a Saechsische Landesbibliothek de Desden perdeu quase 300.000 livros. Os bombardeamentos em Frankfurt arrasaram com a Stadtbibliothek e a Biblioteca da Universidade, perdendo-se mais de 550.000 títulos. E Hamburgo viu desaparecer 600.000 livros entre 1943 e 1944.

Nem nos anos mais recentes, a tentativa de eliminar o registo escrito ficou adormecida. Salman Rushdie é um dos casos mais conhecidos quando, em 1988 publica a primeira edição dos seus ‘Versículos Satânicos’. Em 2001, o Ministro da Cultura Egípcio mandou destruir numa pilha de fogo mais de 6000 volumes da poesia de Abu Nuwas, apesar de ser considerado um clássico da literatura árabe.

Não consigo ficar indiferente quando leio estas histórias de destruição. Mas também não consigo, ao mesmo tempo, de pensar no papel dos livreiros, leiloeiros e extraordinários coleccionadores que em todos os tempos fizeram um esforço, muitas vezes árduo, de preservação deste património único que é o livro. Fazer parte desse lado da história do livro em conjunto com os meus clientes, conforta-me.

Epístolas de Cataldo

As razões porque nos deixamos deslumbrar por uma profissão no início do desempenho de qualquer função com ela relacionada são sempre muitas. Mas creio que a escolha de uma profissão passa muito – se não decisivamente – pelo desenvolvimento de um universo imaginário que nos fascina e nos absorve. Desejar chegar ao ponto de tornar esse imaginário uma realidade é um motor que nos faz superar desafios ou adversidades e a continuar um caminho que, esperamos, um dia nos leve ao paraíso imaginado.

O universo que envolve a profissão que abracei há 25 anos também tem os seus mundos extraordinários de livros que nunca poderemos folhear, mas que desejamos ardentemente poder um dia fazê-lo. Com pouco mais de 17 anos, claro que os incunábulos seriam o clímax desse universo imaginário. Poder sentir o papel com mais de 500 anos impresso com esforço por verdadeiros artesãos, cheirar o acumular de pó como se dele se pudesse ler estratigraficamente os perfumes que nele repousaram, conhecer-lhe os defeitos como que querendo escrever-lhe a cronologia dos momentos mais marcantes da sua existência ou abraçar a encadernação como a sua melhor amiga que guardou aqueles detalhes que fazem a sua biografia um texto notável, eram, e de alguma maneira ainda são, um dos mais profundos desejos de um jovem aprendiz.

Essa oportunidade acabou por acontecer em várias ocasiões, a primeira das quais num dos primeiros leilões que organizei, e algumas até importantes como a Vita Christi de Ludolfo da Saxónia ainda a trabalhar com meu Pai ou um fragmento do Pentateuco impresso em Lisboa, 1489. Porventura por circunstâncias invisíveis ao sonho juvenil, nenhuma teve o peso com que pude catalogar um bonito exemplar (ainda que com defeitos) das Cartas de Cataldo Sículo.

Fica aqui a ficha bibliográfica completa com os comentários publicados no catálogo do leilão Biblioteca Particular, parte V, lote 32.

CATALDO SÍCULO ou CATALDO PARÍSIO

EPISTOLE et Orationes. Lisboa: Valentim Fernandes, 1500, 21 de Fevereiro. a-h6, i8; [56] ff.; 300 mm.

PRIMEIRA EDIÇÃO deste precioso e importante incunábulo português. “Este precioso incunábulo é, certamente, um dos livros mais raros da nossa Bibliotheca” [D. Manuel, v. 2, p. 51]; “una raritá bibliografica e costituiscono uno dei più preziozi cimeli della tipografia portoguese del secolo XV” [Guido Battelli, p. 4]

A biografia de Cataldo não é de fácil elaboração. Segundo Costa Ramalho [cf. Epistolæ…, Univ. Coimbra, 1988] o humanista é natural de Sciacca na Sicilia, tendo nascido por volta do ano de 1455. Graduou-se em Direito em Ferrara em Fevereiro de 1484 e chegou a Portugal no ano de 1485 ou 1486, a convite de D. João II. Foi entre nós que “o seu contributo para a introdução do humanismo e para a actualização do nosso País com a cultura literária da Europa mais adiantada, a partir da fonte que era então a Itália, o seu papel na europeização cultural dos portugueses foi de grande significado” [Ramalho, p. 11].

Chegou a Portugal por convite de D. João II com a tarefa de educar o filho D. Jorge. Não restringindo a sua actuação a esse discípulo, ensinou, directamente ou por correspondência, variadíssimos nobres da corte, entre eles D. Manuel enquanto Duque de Beja [cf. Bibliografia Geral, p. XLVII]. Tal o seu trabalho como formador que Carolina Michaelis de Vasconcelos lhe dá o título de “præceptor Portugaliæ” [cf. Notas Vicentinas, p. 28].

Neste ano de 1500, Valentim Fernandes fez sair mais duas obras do autor, ‘Poemata‘ e ‘Visiones’ [cf. Bibliografia Geral n. 27 e 28], mas é este seu Epistolæ a maior e mais interessante. A obra contém várias cartas tanto a D. João II como a D. Manuel I, bem como às principais figuras da nobreza, “cheias de curiosos informes sobre a vida portuguesa naquele período do Renascimento” [Bibliografia Geral, p. XLVII]. E é também neste livro que se publica uma celebrada carta do Conde de Alcoutim a Valentim Fernandes.

Sobre o valor do epistolário de Cataldo escreve Guido Battelli: “Se in giorno qualcuno penserá a ripubblicare l’epistolario di lui, quanta luce sulle relazioni culturali dell’Italia col Portogallo! Egli é in corrispondenza con tutti gli uomini più colti del suo tempo; e noi possiamo facilmente immaginarci che gioia e che festa ognuna delle lettere da lui ricevute dall’Italia acranno destato a Corte” [p. 11].

Saiu uma segunda parte das cartas de Cataldo, também por Valentim Fernandes por volta do ano de 1513.

RARÍSSIMO, valioso e muito importante.

Bibliografia: Hain, 4678; Haebler, 136; D. Manuel, 274 [com frontispício e último fólio facsimilado] e v. 2, pp. 51-52; Bibliografia Geral, v. 1, 26 e pp. XLV-LI; Biblios, v. 5, c.14; BATTELLI, Guido, Cataldo Siculo, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1930; SICULO; Cataldo Parisio, Epistolæ et Orationes, Edição fac-similada, introdução de Américo da Costa Ramalho, Coimbra, Universidade, 1988

A Arte de Voar à Maneira dos Pássaros

Corria o ano de 2002 quando me aventurei na organização de leilões de livros, em associação com uma importante casa leiloeira da época. A Biblioteca pertencia a um colecionador de arte portuguesa e era composta por uma das mais extraordinárias colecções sobre o tema então existentes em mãos de particulares.

De entre os milhares de títulos que cataloguei, muitos ainda hoje são importantes fontes de estudo, mas um deles chamou a minha atenção pela curiosidade do tema e pela raridade. Tratava-se de um pequeno volume de apenas 46 páginas. De pequeno formato, sobressaia a gravurinha que o ilustrava, apresentando um homem num aparelho semelhante a uma asa delta. A legenda era elucidativa: «Rapresentação [sic] da máquina de voar, que mostra o homem que voa tanto pela parte de diante Letra A, como horizontalmente [sic] Letra B descoberta por G. F. Meérwein, Architecto do Marquez de Baador».

O engenho havia sido testado com relativo sucesso em 1781, dando notícia desse acontecimento a obra L’Art de Voler à la Manière des Oiseaux, publicada em 1785 por J. J. Thourneisen, segundo a qual Meérwein havia conseguido planar durante algum tempo, tendo acabado estatelado no chão, causando grande consternação ao Príncipe de Baden, de quem era arquitecto.

A edição portuguesa é de 1812 e é uma das primeiras obras em língua pátria a tratar deste assunto e em 2003, data do leilão, com o número de lote 758, foi vendido pela quantia de 660,00€.

A ficha completa:

MÉERWEIN (Carlos Federico [sic])

A ARTE DE VOAR À MANEIRA DOS PÁSSAROS. – Lisboa: Na Impressão Régia, 1812. – 46 pp., 2 grav.: il.; 165 mm.

Diário de um Livreiro na Escócia

Shaun Bythell é o proprietário de uma livraria antiquária em Wingtown, Escócia, uma pequena cidade junto à costa de Galloway e em 2010 tomou a decisão ousada de escrever um diário no Facebook onde deixava notas sinceras e, algumas vezes, pouco simpáticas sobre os seus clientes e sobre o negócio.

Esse diário, transformou-se, em 2017, num livro divertido e fascinante na mesma medida e um retrato cuidado dos desafios e dificuldades que enfrentam as pequenas livrarias independentes por esse mundo fora.

Apenas alguns exemplos.

Em 1899, na Grã-Bretanha, uma divergência entre os grandes editores e as livrarias resultou num acordo que proibia qualquer desconto sobre o preço de capa, apenas podendo reduzir-se o preço para livros defeituosos. Aproveitando esta cláusula do acordo, em 1991, uma cadeia retalhista começou a marcar os livros que queria aplicar descontos com uma cruz, resultando na declaração de que o acordo era ilegal em 1997. Resultado, na opinião do livreiro, “The book market is now controlled not by publishers but by buyers for Waterstones and Tesco and other ‘ combines’, as Orwell would have called the them.”

E sobre a Amazon, são muitas as entradas que lhe fazem referência, mostrando a enorme pressão a que estas pequenas livrarias são sujeitas. “One of the principal pleasures of self-employment is that you don’t have to do what the boss tells you. As Amazon marches on with its ‘everything shop’ crusade, it is slowly but certainly becoming the boss of the self-employed in retail.”

Mas é também um livro cheio de anedotários,

“Just as I was returning from the kitchen with my cup of tea, a customer with polyester trousers about six inches too short and a donkey jacket almost knocked it out of my hand and asked, ‘Have you ever had a death in here? Has anyone ever died falling off a stepladder in the shop?’ I told him, ‘Not yet, but I was hoping today might be my lucky day.”

Ou,

“Really bookish people are a rarity, although there are vast numbers of those who consider themselves to be such. The latter are particularly easy to identify – often they will introduce themselves when they enter the shop as ‘book people’ and insist on telling you that ‘we love books’. They’ll wear t-shirts or carry bags with slogans explaining exactly how much they think they adore books, but the surest means of identifying them is that they never, ever buy books.”

Uma excelente leitura, simples, divertida e ao mesmo tempo capaz de nos fazer reflectir sobre o caminho que o mercado do livro está a percorrer e qual o papel de cada um nesse mercado, seja editor, distribuidor, livreiro ou leitor.

António Tenreiro, um Viajante Português

Pouco se sabe sobre a vida de António Tenreiro, além do que escreveram Diogo do Couto e Gaspar Correia. Segundo o autor das Décadas, Tenreiro era natural de Coimbra, tendo acompanhado a comitiva do embaixador Baltasar Pessoa ao rei da Pérsia. Por vontade própria afastou-se da embaixada e dirigiu-se a Jerusalém, acabando preso no Cairo. Solto, decide regressar à Índia, lugar a que também não chegou, detendo-se em Ormuz, segundo ele próprio, por cinco ou seis anos.

Havendo notícias para fazer chegar a D. João III o mais rapidamente possível, o governador Lopo Vaz de Sampaio e o capitão da fortaleza de Ormuz, Cristóvão de Mendonça, procuraram alguém adequado para a empresa. Como alerta Luís de Albuquerque, o caminho mais rápido para então se chegar a Portugal era o terrestre, não o marítimo, “embora fosse também, certamente, a mais eriçada de ciladas e incertezas” (Albuquerque, p. 42). António Tenreiro reunia o conjunto de qualidades necessárias – falava árabe, conhecia os costumes daqueles povos – e, mediante algumas condições impostas, aceitou partir para Portugal, onde chegou ao fim de três meses.

Mapa dos locais mencionados no Itinerário na viagem de Ormuz para Lisboa.

Esta viagem de Tenreiro constitui a primeira em que se realizou o troço mais difícil da viagem da Índia a Portugal por terra, sem ser integrado numa caravana, mas apenas por um guia e que apenas o seguiu durante a travessia do deserto.

Chegado a Portugal, alcançou grande reconhecimento por parte de D. João III, tendo-lhe concedido mercês e o hábito de Cristo.

A descrição da sua viagem é feita com grande cuidado e detalhe. Além das informações sobre as cidades e vilas que visitou e os costumes das gentes, possui outros pontos de interesse como breves apontamentos breves sobre a vida das cáfilas quando atravessavam as zonas desérticas, entre outros.

As duas primeiras edições, como se descreve em baixo, são de 1560 e 1565, seguindo-se edições no século XVIII integrado nas edições daquele século das Peregrinações de Fernão Mendes Pinto. Mais recentemente, António Baião, em 1953 publica uma edição com alguns documentos relativos à vida do viajante.

Edições

  1. Itinerário de António Tenreyro Cavaleyro da ordem de Christo, em que se contem como da India veio por terra a estes Reynos de Portugal. Coimbra: Em Casa de António de Maris, 1560.
  2. Itinerário De António Tenrreyro, que da India veyo por terra a este Reyno de Portugal. Em que se conte[m] a viagem & jornada q. fez no dito caminho, & outras muitas terras & cidades, onde esteve antes de fazer esta jornada, & os trabalhos q. em esta pelegrinação pasou. Em Coimbra: Por João Barreira, 1565.
  3. PINTO, Fernão Mendes. Peregrinação de Fernaõ Mendes Pinto E por elee escrita: que consta de muitas, e muy estranhas cousas, que vio, e ouvio no Reyno da China, no da Tartaria, no de Pegú, no de Martavaõ, e em outros muitos Reynos, e Senhorios das partes Orientaes. E tambem dá conta de muitos casos particulares, que aconteceraõ assim a elle, como a outras muitas pessoas; e no fim della trata brevemente de alguas noticias, e da morte do Santo Padre Mestre Francisco Xavier […]. E agora novamente correcta, e emendada. Accrescentada com o Itenerario de Antonio Tenreiro […] e a Conquista do Reyno de Pegú feita pelos Portuguezes no anno de 1601, sendo Vi-Rey da India Ayres de Saldanha. Lisboa: Officina Ferreiriana, 1725.
  4. PINTO, Fernão Mendes. PEREGRINAÇAÕ de Fernaõ Mendes Pinto E por elee escrita: que consta de muitas, e muy estranhas cousas, que vio, e ouvio no Reyno da China, no da Tartaria, no de Pegú, no de Martavaõ, e em outros muitos Reynos, e Senhorios das partes Orientaes. E tambem dá conta de muitos casos particulares, que aconteceraõ assim a elle, como a outras muitas pessoas; e no fim della trata brevemente de alguas noticias, e da morte do Santo Padre Mestre Francisco Xavier […]. E agora novamente correcta, e emendada. Accrescentada com o Itenerario de Antonio Tenreiro […] e a Conquista do Reyno de Pegú feita pelos Portuguezes no anno de 1601, sendo Vi-Rey da India Ayres de Saldanha. Lisboa: Officina João de Aquino Bolhões, 1762.
  5. PINTO, Fernão Mendes. Peregrinação de Fernão Mendez Pinto. Nova edição conforme a primeira de 1614. Lisboa: Na Typographia Rollandiana, 1829.
  6. ITINERÁRIOS da Índia a Portugal por Terra. Revistos e prefaciados por António Baião, Director do Arquivo da Torre do Tombo e sócio efectivo das Sciências de Lisboa. I. Itinerário de António Tenreiro, Sexta Edição, Conforme a Segunda, de 1565. II. Itinerário de Mestre Afonso, Reedição conforme o manuscrito da Torre do Tombo. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1923.
  7. [e 8.] Itinerário em que se Contém como da Índia veio por terra a estes Reinos de Portugal António Guerreiro / Recolha de Luíza Lemos. Lisboa: Editorial Estampa, 1971 e 1980.
  1. Viagens por terra da India a Portugal, Tenreiro e Mestre Afonso. Lisboa: Publicações Europa América, 1991.
  2. Itinerário da Índia por Terra a Este Reino de Portugal / ed. Rui Manuel Loureiro. Portimão : Livros de Bordo, 2020

Bibliografia

Inocêncio, v. 1, 281; v.8, 314; Barbosa, v1, p.407; D. Manuel, 97; GRAÇA, Luís, A Visão do Oriente na Literatura Portuguesa de Viagens: Os Viajantes Portugueses e os Itinerários Terrestres (1560-1670). Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1983; ALBUQUERQUE, Luís de, «António Tenreiro, O Fascínio da Viagem por Terra» in Navegadores, Viajantes e Aventureiros Portugueses, Sécs XV e XVI. Lisboa: Círculo de Leitores, 1987, v.2, pp.42-52.

Gestos de Licitação

Ao longo destes quase 20 anos a organizar leilões, quando a curiosidade de alguém que nunca frequentou leilões nos interpela, quase sempre a primeira pergunta está relacionada com os gestos de licitação nos leilões em sala.

Se eu levantar os olhos num lote de 1.000€ o pregoeiro vai atribuir-me o lance? E se for a caneta? Terá de ser com o catálogo?

Como devem imaginar, em 20 anos já vimos muita coisa. A forma mais comum de licitar é recorrendo ao número que lhe é atribuído no início de cada leilão. Depois há o recurso à caneta, à mão ou ao dedo. Finalmente, um pouco mais dissimulado – ou assim esperam os licitantes – os gestos com o rosto e com o olhar.

Cada comprador tem a sua própria estratégia e os seus gestos a ela associada. Há aqueles que preferem mostrar claramente a toda a sala que estão a licitar. Quase como a querer dizer, eu não vou largar. Outros preferem permanecer o mais escondidos possível, evitando o mais possível serem reconhecidos como um dos licitantes para o lote. Pelo meio, há os distraídos que, a meio da licitação perguntam qual é o lote em praça para, confirmando o que já sabem, dizer “obrigado” e levantarem o seu número.

O mais difícil licitante que alguma vez encontrei apareceu pela primeira vez num leilão com literatura contemporânea e efémera ligada a ela. Sentou-se na primeira fila. O leilão começou, fez-me um primeiro sinal, muito escondido que vi por acaso. Depois disso, baixou os olhos e ficou imóvel. Olhei para confirmar e, perante a ausência de gestos, atribuí o lote a outro cliente. Lançou-me um olhar fulminante. Perguntei “estava a licitar?”, anuiu com a cabeça sem dizer uma palavra. Voltei atrás, como é regra em todos os leilões, o outro cliente deu mais um lance e quando regressei permanecia imóvel. Inquiri novamente se estava a licitar e novo olhar irritado, mas lá conseguiu comprar o lote.

Passei, naturalmente, a ficar mais atento. Para entrar na contenda, simplesmente olhava-me nos olhos sem qualquer expressão. A partir desse momento, ficava imóvel, a olhar para baixo na direcção do catálogo. Nada, nenhum movimento, nenhuma expressão, tentando parecer o mais invisível dos clientes em sala. Perceber como entrava levou-me apenas 2 lotes, mas perceber se permanecia na contenda ou se já desistira foi mais difícil.

Pessoas sentadas numa plateia realizam gestos naturais: ajeitam-se na cadeira, esticam-se, encolhem-se, põem o catálogo ora para cima, ora para baixo, falam com a pessoa do lado. Qualquer pregoeiro ignora esses gestos. Este nosso cliente, para desistir, passava da imobilidade para o comportamento normal de uma pessoa sentada. Por vezes anotava coisas, outras olhava para a sua colaboradora que o acompanhava sempre, outras ajeitava-se na cadeira, ou seja, gestos que naturalmente um pregoeiro tende a ignorar e que, ainda por cima, nunca eram iguais.

Foi um dos melhores clientes que tivemos nessa época, criterioso nas compras, conhecedor e um verdadeiro desafio sempre que entrava na sala.

Para os pouco experientes, fiquem descansados, gestos inadvertidos não se transformam em licitações. O pregoeiro saberá interpretar, mesmo que permaneça imóvel como este paciente pregoeiro da Sotheby’s.

De Como a Catarina Aprendeu a Ordenar Leilões

Conheça a história de como a Catarina aprendeu a ordenar livros de leilões.

Uma das tarefas necessárias à organização de leilões é colocar os livros na estante pela ordem que consta no catálogo. Tradicionalmente, os catálogos são ordenados de acordo com critérios específicos, que, grosso modo, correspondem a uma ordenação alfabética por apelido do autor ou, na sua ausência, pelo título.

Ordenar livros a partir dos seus frontispícios é um trabalho bastante moroso e pouco prático. No nosso caso, preferimos fazer todos os verbetes por ordem aleatória, ordenando depois através do software de acordo com critérios pré-definidos, fazendo-lhe uma verificação e correcção.

Significa que, depois de todos os verbetes estarem feitos, é preciso reordenar de acordo com o catálogo. Para isso usamos dois números, o primeiro, do verbete e o segundo, do catálogo. Devido à natureza bastante irregular dos títulos – uns brochuras de poucas páginas, outros grossos in-fólios de 20 volumes – é pouco prudente ir colocando na estante, especialmente se as estantes disponíveis forem poucas ou à justa. Irá quase de certeza resultar na necessidade de deslocar um vasto conjunto de títulos para se encontrar espaço no meio da prateleira certa.

Ordenar os livros de um catálogo foi uma das primeiras tarefas específicas que a Catarina teve de fazer. Habituada a receber produtos e colocá-los na estante com determinado método, julgou que usá-lo para os livros seria igualmente eficaz e seguro.

Com anos de experiência na profissão, já com muitos milhares de livros ordenados no currículo, o Nuno deu-lhe algumas orientações e avisos totalmente ignorados. Ao antecipar o cataclismo, os quase quinze anos de experiência de casamento permitiram ainda um breve aviso, saindo de mansinho para se dedicar à colacção de um outro título que, previa, não iria terminar.

Passaram poucos minutos e a catástrofe aconteceu. No chão do armazém estava uma pilha de 5 volumes in-oitavo com o número 6 ou 7, não sabemos precisar, para colocar na primeira prateleira de uma estante sem um milímetro livre. A única solução seria deslocar algumas centenas de títulos já belamente ordenados e prontos.

A Catarina estava em total desespero, desconhecemos se provocado mais pelo vislumbre do trabalho que estava pela frente, se por ter de dar razão à experiência do Nuno, mas acreditamos que muito mais pela primeira.

Nem a já referida experiência matrimonial foi grande ajuda. Mesmo evitando troca de olhares ou palavras com mais do que uma sílaba, o “eu avisei-te” não pensado e muito menos verbalizado, soou como os trompetes de Handel na cabeça da Catarina.

Silenciosamente, o Nuno completou a tarefa e desde esse dia nunca mais houve qualquer problema na ordenação dos livros para os leilões, até recebendo preciosas melhorias provenientes da experiência da Catarina.

Do Primeiro Leilão em que o Nuno Participou

Conheça a história do primeiro leilão onde o Nuno participou.

A história da bibliofilia, de certo modo, confunde-se com a história dos leilões. Existentes desde o século XVIII, os catálogos deixaram um conjunto vasto de dados importantes para a história do livro e da bibliofilia e são, ainda hoje, um recurso importante para profissionais e colecionadores. Entre nós, os casos mais emblemáticos e conhecidos são os das bibliotecas de Azevedo-Samodães ou Ameal, mas outros, mais recentes, são referenciados amiúde pelos profissionais.

O Nuno, ainda antes de se juntar a seu Pai, teve o privilégio de participar em alguns leilões. E bem diferentes que eles eram.

O primeiro a que assistiu, forçado, foi em 1991 na Soares e Mendonça. Quase sempre, numa regra não escrita, mas durante anos levada à letra, os leiloeiros informavam-se uns aos outros do seu calendário para que não existissem sobreposições. Dessa vez, no entanto, aconteciam dois leilões em simultâneo. O Pai do Nuno foi a um, o que tinha os títulos mais importantes, deixando ao Nuno a tarefa de licitar meia dúzia de lotes no do Soares e Mendonça.

Chegou cedo, apresentou-se, e lá o sentaram ao lado esquerdo do pregoeiro, o Sr. Luís. Era outro tempo, e apesar dos seus 16 anos, ofereceram-lhe de imediato café, Porto ou Whisky. Ficou-se pelo café.

Observou o cenário. As mesas disposta em U, começavam a encher-se de catálogos, mas poucos permaneciam sentados. A maioria estava de pé, junto às estantes, conversando uns com os outros, muito provavelmente, hoje o sabe, num último esforço para afastar a concorrência. Um assobio persistente ouvia-se por todo o espaço, interrompido quando alguém lhe dirigia a palavra ou para cumprimentar o Sr. Dr. que entretanto entrava na sala. A formalidade era evidente, mas não aquela cerimoniosa de um jantar real. Assemelhava-se mais a um encontro cordial entre adversários que se respeitam e nalguns casos até se admiram, antes da batalha final.

O Sr. Luís sentou-se no púlpito alto no centro da sala e dirigiu-se aos presentes com as palavras costumeiras nos leilões. As condições gerais e especialmente a que se referia à dúvida sobre o último licitante e, mais uma vez, “os Ex.mos Srs que quiserem um Porto ou um cafézinho, façam o favor de o pedir.” Metade dos presentes não ouviu. Permaneceu exactamente onde estava e com quem estava. Só quando se ouviu, “Vamos dar início ao leilão”, um burburinho provocado por cadeiras, canetas e catálogos a abrir iniciou-se tão rápido quanto terminou. O primeiro tiro ia ser dado nos segundos seguintes.

O Nuno sentiu de imediato uma tensão crescente, até aí inexistente e que, percebeu mais tarde, é denominador comum em todas as salas de leilão, especialmente nos bons. Numa sala já cheia de fumo de cigarro e charuto que não mais se apagaram até ao final da noite, as trocas de olhares passaram de cordialidade e admiração para desconfiança e alerta. Segundos depois, o martelo bateu na mesa pela primeira vez e o Sr. Luís anunciou “dez contos e quinhentos para o Sr. Eng.º, não retira.”

Não se recorda se conseguiu comprar alguma coisa para o Pai. Mas lembra-se bem de ter levantado o braço trémulo pela primeira vez e, de imediato, sentir toda a sala trocar olhares entre si como que a perguntar, quem é este miúdo?

Este miúdo, aqui está, mais de 30 anos depois, apaixonado pela sua profissão, emprestando a cada verbete que faz o mesmo carinho e empenho com que tentou fazer o primeiro.

De Como a Catarina passou dos “Patinhas” ao Eça

A história desta semana que começa em 1993 quando o Nuno e a Catarina começaram o seu relacionamento.

A Catarina sempre apreciou mais os bicos de Bunsen ou as placas de Petri que a literatura, com excepção daqueles pequenos livrinhos, com o Tio Patinhas, Pato Donald, Mickey e Gastão como protagonistas, com os quais gastava muitas horas de ócio.

Ao longo de um ou dois anos o Nuno, sem qualquer sucesso, diga-se, tentou que a Catarina entrasse noutro universo, maior, mais rico e mais desafiante. Nada contra os “Patinhas”, que também os lia, mas queria que a mulher da sua vida entrasse mais no seu mundo e houvesse mais outra coisa em comum.

Um dia, cansado de tentar livros e livrinhos, num acto de puro desespero, propôs-lhe um último desafio que, se se frustrasse, nunca mais a aborreceria com o assunto. Ousado, o Nuno pediu à Catarina que abrisse Os Maias com o compromisso de o ler até um capítulo depois da descrição do Ramalhete. Caso, lidas essas páginas, a Catarina não quisesse continuar, nunca mais o assunto seria assunto. Ela aceitou, quer-nos parecer mais para calar o Nuno definitivamente que para superar o desafio.

Não sem um quê de superstição, o Nuno nem sequer indagava como estava a leitura, deixando o tempo passar. No fim de semana seguinte, sem programa, enquanto permaneciam desinteressados de tudo na pequena sala de estar da casa dos pais, a Catarina tira o volume vermelho da edição dos Livros do Brasil da mochila e abre-o bem para lá de meio. A pergunta que o Nuno estava prestes a fazer guardou-se bem no fundo do esquecimento, sorrindo para dentro, calado e satisfeito.

Algum tempo depois, a Catarina, desembaraçada, perguntou ao Nuno: — Que achaste da Relíquia?… E ainda hoje, a Catarina regressa ao Eça de quando em vez, bem mais que o Nuno.

Da Legislação sobre as Leiloeiras

Como cliente, não tem obviamente de conhecer a legislação que regula as leiloeiras em Portugal e, com pequenos ajustes a cada país, na União Europeia. A verdade é que para poder exercer a actividade de leiloeiro é necessário cumprir com um conjunto de regras que visam proteger o património, o próprio leiloeiro, o cliente vendedor e o cliente comprador.

Desde 2016 (o diploma é de 2015, mas previa um ano de adaptação), numa transposição de uma norma europeia, que o exercício da actividade leiloeira implica o seu licenciamento por parte da Direcção Geral das Actividades Económicas e o cumprimento de um conjunto de normas. A ausência de licenciamento ou o incumprimento do corpo normativo, leva à impossibilidade da empresa exercer a actividade leiloeira.

É importante salientar que este diploma abrange toda e qualquer actividade leiloeira, independentemente do meio utilizado – em sala, online através de website próprio ou das redes sociais.

É este licenciamento que garante ao cliente total segurança no momento das suas licitações.

Ecléctica Leilões está devidamente licenciada desde o primeiro momento, cumprindo rigorosa e escrupulosamente todo o corpo normativo a que está legalmente obrigada, assim como muitas outras leiloeiras em que pode confiar.

Da Bibliografia que Usamos

Hoje é dia de falar sobre bibliografia.

Tempos houve em que uma parte das estantes dos livreiros tinha afixado o aviso “Bibliografia. Não se vende.” Na Ecléctica, era uma estante inteira numa das salas interiores. Na Livraria Campos Trindade, do saudoso Tarcísio Trindade e depois do seu filho Bernardo, eram as prateleiras superiores de quase todas as estantes. Na Livraria Olisipo, de José Vicente, uma estante por trás da sua secretária ao fundo da loja. Em todas, de maior ou menor dimensão, mais escondidas ou menos, a Bibliografia fazia parte integrante das livrarias alfarrabistas e estranhar-se-ia se não houvesse.

Com os novos recursos disponíveis na internet, essas bibliografias parecem ter passado por uma fase de diminuição de importância ou caído numa espécie de esquecimento. É verdade que algumas passaram a ter uma função mais histórica, como fontes importantes para a história do livro, e menos útil para profissionais e bibliófilos. Lembramo-nos, por exemplo, da Bibliografia Geral de Manuel dos Santos ou catálogos de leilões como os de Azevedo-Samodães ou do Conde do Amealcujo rigor nas descrições foram instrumentos importantíssimos no nosso trabalho, mas que hoje facilmente se substituem pelos catálogos digitais das principais Bibliotecas do mundo disponíveis na internet. No entanto, a Bibliografia impressa continua a ter um papel importante no exercício da nossa profissão.

Quais são, então, as bibliografias que usamos na Ecléctica Leilões? Não podendo ser exaustivos, escolhemos quatro exemplos.

 

Dicionário Bibliográfico de Inocêncio e Biblioteca Lusitana de Barbosa Machado

É incontornável. Fazemos parte de um pequeníssimo grupo de países que têm na sua história nomes como o de Inocêncio ou Barbosa Machado. Se há noutros países dicionários bibliográficos — Palau ou Brunet, só para citar alguns — nenhum tem as características dos nossos. Além das descrições dos títulos de cada autor, os nossos possuem uma pequena (por vezes não tão pequena) biografia de cada autor e comentários para muitos dos seus títulos. Se a obra é de autor português, Inocêncio ou Barbosa Machado serão consultados.

Como são obras de domínio público, encontrará digitalizados e disponíveis para descarregar a maioria dos volumes de Inocêncio e a totalidade da obra de Barbosa Machado. Por aqui, não só, mas também por uma questão prática, continuamos agarrados ao papel que, devido ao formato das versões digitais, é mais fácil e rápida de consultar. (Veja, por exemplo, no Internet Archive – https://archive.org/).

 

Livros Antigos Portugueses, El-Rei D. Manuel II

Infelizmente, não são muitas as oportunidades que temos de o usar — não são muito os livros portugueses do século XVI que nos aparecem para vender —, mas é obrigatório, especialmente nas entradas dos dois primeiros tomos. E quando não há oportunidade, na Ecléctica gostamos de folhear o catálogo da Biblioteca de D. Manuel II. É um verdadeiro colosso.

Se tem, quer ter ou é um simples curioso da história da impressão em Portugal até 1600, este é um catálogo obrigatório.

A Fundação da Casa de Bragança tem disponível os três volumes, aqui → https://www.fcbraganca.pt/biblioteca/biblioteca-digital/

 

Encyclopedia of Exploration, Raymond John Howgego

É uma obra de referência desde o início da sua publicação. Em especial o primeiro volume, que se ocupa das viagens de exploração até 1800, tem imensas entradas directa ou indirectamente relacionadas com Portugal. Se gosta e colecciona livros de viagens é um título obrigatório.

Em virtude da venda da Biblioteca Particular que desde 2012 temos estado a apresentar, é obra à qual recorremos amiúde.

Julgamos que já não está disponível no editor, mas é possível encontrar exemplares à venda no mercado internacional. Aqui, o site oficial → https://www.hordern.com/explorers-encyclopedia/index.php

 

Dicionário da Imprensa Periódica Literária Portuguesa do Século XX, Daniel Pires

Outro legado. É um trabalho de fôlego, de horas e horas de consulta, pesquisa, leitura atenta e seriação. Organizado em dois volumes, o primeiro ocupando-se das publicações de 1900 até 1940 e o segundo, dividido em dois tomos, de 1941 a 1974, descreve com detalhe as revistas literárias portuguesas que se conhecem publicadas naqueles anos.

Claro que lá estão PresençaOrpheuSeara Nova ou Athena. Mas também estão as mais efémeras e desconhecidas. Seja coleccionador de revistas onde colaborou o seu autor favorito, seja coleccionador de revistas de um determinado período, este é uma aquisição obrigatória.

Julgamos já não estar disponível, mas certamente encontrará no seu alfarrabista de eleição.

 

São muitíssimas mais as obras que consultamos para lhe proporcionar verbetes com a maior qualidade possível. Hoje, mais do que antes, recorremos muitas vezes a publicações monográficas. A Biblioteca Nacional, por exemplo, tem publicado várias e muito interessantes bibliografias disponíveis em formato digital ou em “print on demand”.

O importante é munir-se das bibliografias que precisa de acordo com a temática da sua Biblioteca. Se precisar de ajuda na procura da bibliografia adequada, teremos todo o prazer em ajudar.

De Alguns Recursos que Usamos

Hoje, partilhamos consigo cinco recursos que usamos na Ecléctica Leilões.

1. Porbase: https://porbase.bnportugal.gov.pt/

PorBase

Porbase é a maior base de dados bibliográficos do país. Coordenada pela Biblioteca Nacional, contém os seus registos e de mais de 170 outras bibliotecas portuguesas, quer públicas, quer privadas. Constitui, por isso, um valioso instrumento bibliográfico onde cada registo obedece às Regras Portuguesas de Catalogação com informação bastante rigorosa e fidedigna.

2. KVK, Karlsruhe Virtual Catalog: https://kvk.bibliothek.kit.edu/

kvk search old books

O Karlsruhe Virtual Catalog é um instrumento semelhante à Porbase, mas que agrega os registos das bibliotecas nacionais de vários países (incluindo a nossa Porbase) e de vários outros sítios na internet de venda de livros antigos. Constitui um valioso instrumento especialmente se lida com títulos estrangeiros sem a necessidade de consultar cada uma das bases de dados dos respectivos países.

3. Universal Short Title Catalogue: https://www.ustc.ac.uk/

Universal Short Catalogue

Da forma impressa para a disponibilidade na internet, o Universal Short Title Catalogue é outra ferramenta importantíssima quando se investiga obra de séculos mais recuados. Como o nome indica, não apresenta os dados completos para cada espécie bibliográfica, mas uma forma concisa. Ainda assim, tem os dados essenciais como autor(es), título, pé de imprensa e colacção. Na Ecléctica Leilões já ajudou a ter a certeza quais as faltas de um determinado exemplar. É usado amiúde por profissionais, apresentando-se a maioria das vezes a referência bibliográfica na forma USTC seguido do seu número de registo. Por exemplo, USTC5039303 para a edição de 1609 das Rimas de Camões.

4. AddAll: https://www.addall.com/used/

Add All search Engine

O AddAll é um portal agregador dos títulos que se encontram à venda em sítios na internet como o Abebooks, Antiqbook, Alibris, Livre Rare Book, entre muitos outros. Se está à procura de um título em particular para compra directa, pode fazer a sua pesquisa por aqui, facilmente podendo comparar a oferta. O AddAll não vende nada, simplesmente indica em que sitíos o título pesquisado está disponível e qual o livreiro que o vende.

5. Rare Book Hub: https://www.rarebookhub.com/

Rare Book Hub

O Rare Book Hub oferece um serviço único e até ao momento inigualável. Numa base de dados gigantesca, possui o registo de vendas em leilão do mundo inteiro, recuando até início do século XX. Se um determinado título foi vendido, por exemplo, na Sothebys de Nova Iorque em 1988, o registo estará nesta base de dados, ficando a saber por quanto foi vendido. Em suma, é a agregação do antigo Book-Auction Records.

Além deste histórico, possui também um registo de títulos colocados à venda em leilões e por livreiros registados. Recorrendo a uma ferramenta que a empresa chama “matchmaker”, o utilizador guarda palavras-chave e receberá no seu email informações sobre títulos colocados à venda que satisfazem os critérios que guardou.

A ferramenta de avisos para livros disponíveis, quer em leilões, quer em livreiros, é gratuita. As mais avançadas, incluindo os resultados passados, só estão disponíveis por subscrição com preços que começam nos USD$52,50 para uma utilização por 10 dias a USD$825,00 por ano para acesso a todas as funcionalidades.

De Como a Ecléctica Descreve os Seus Livros

Esta semana, não há leilões, mas como prometido, cá estamos para falar sobre “fichas bibliográficas” ou, se preferir, “verbetes”.

Todos os que gostam de livros antigos sabem o que são verbetes e conhecem os seus elementos mais básicos: autor ou autores, título, lugar, editor e data. Na grande maioria dos casos, em especial em livros impressos depois de 1800, essas indicações serão suficientes para a correcta identificação de uma edição. No entanto, especialmente para livros impressos em tempos mais recuados, esses indicadores são insuficientes, carecendo de outros igualmente importantes.

Na Ecléctica Leilões, esforçamo-nos para que todos os elementos que compõem um verbete completo estejam presentes de acordo com as Regras Portuguesas de Catalogação.

Os nossos verbetes têm, então, a seguinte ordem:

  1. Autor ou autores, na forma APELIDO (Nomes);
  2. Título completo;
  3. Menções de responsabilidade (prefácios, introduções, ilustrações, etc.);
  4. Edição e responsabilidade da edição (por exemplo, edição comentada por…);
  5. Pé de imprensa: Lugar, Editor ou Impressor, Data;
  6. Colacção (que inclui o número de cadernos, paginação, volumes, ilustrações impressas à parte, formato e dimensão);
  7. Finalmente, um comentário sobre o estado do exemplar e breve descrição sobre o livro em venda.

Claro que nem sempre é possível obter toda esta informação, seja porque não existe (o título não tem prefácios ou introduções), seja porque não está explícita no livro que se descreve.

É aqui que entram os recursos bibliográficos, tão importantes para o nosso trabalho.

Estes são os critérios da Ecléctica Leilõesmas cada profissional terá o seu critério e o seu estilo. Nós que vendemos livros, temos a responsabilidade de providenciar a mais completa informação possível, sendo esse o aspecto mais importante. Não importa se o profissional usa as Regras ou o seu próprio estilo. O que importa e o que distingue um profissional de um amador é a qualidade dessa informação. O título está completo, é a primeira edição, segunda ou terceira, tem todas as gravuras impressas à parte? Todos os profissionais que conheci e conheço preocupam-se com esses aspectos.

Por isso, não há maneira certa ou errada de apresentar os verbetes. Procure conhecer o estilo e a forma dos verbetes do profissional. Se tiver dúvidas contacte-o. Quando conhecer esses critérios e estilos, poderá comprar com toda a segurança. Tal como nós, os outros profissionais responsabilizar-se-ão pelos seus verbetes.

A seguir apresentamos, na infografia, cinco dicas básicas para que possa construir os seus próprios verbetes e manter um catálogo da sua biblioteca.

5 dicas para manter um ficheiro bibliográfico

De Como um Livro Chega ao Leilão

Na semana passada percebeu de como o Nuno foi enganado pelo Pai e dedicou toda a sua vida aos livros antigos. Conheça agora a peregrinação que o livro faz numa venda em leilão.

Quando somos contactados para vender uma biblioteca ou um pequeno lote para leilão, a primeira fase é, claro, uma avaliação sobre o interesse dos mesmos para os nossos clientes.

Para nós, o critério de selecção centra-se em ajudá-lo a si a enriquecer a sua biblioteca. Trata-se, portanto, de um critério qualitativo e não quantitativo. É por essa razão que na Ecléctica Leilões raramente encontra lotes com três ou quatro títulos. Para nós, cada livro ou folheto tem um lugar próprio por direito, a sua biblioteca.

Seleccionados, chegados a acordo sobre as nossas comissões, feito o inventário sumário de cada título entregue, os livros entram para a fase de organização, agrupando-se em conjuntos que formarão os leilões. Nem sempre é possível, mas esforçamo-nos para que cada leilão tenha alguma coerência e unidade, seja pela temática, seja pela proveniência.

Cada título entra então na fase de catalogação, a mais demorada, complexa e que requer maiores cuidados. Cada livro é verificado e descrito conforme as Regras Portuguesas de Catalogação, com ligeiras adaptações, dando especial atenção à descrição do estado de conservação do exemplar e pelas quais a Ecléctica, em particular o Nuno, se responsabiliza por cada palavra usada. Este processo consome entre 15 minutos, para os títulos mais simples, a várias horas para livros importantes e complexos.

Depois de descrito, cada livro vai para o estúdio para ser fotografado e, finalmente, é carregado no nosso site para que possa licitar com segurança e assim enriquecer a sua fantástica Biblioteca.

De como o Nuno foi enganado pelo Pai

Há duas semanas ficou a saber que o Nuno começou a trabalhar nesta coisa estranha que são os 📚 livros antigos com apenas 17 anos. Esta semana, saiba como o Pai o enganou, bem enganado.

No ano de 1992, há quase 30 anos, portanto, o Pai do Nuno, o Sr. Alfredo Gonçalves arrendou o espaço onde ainda hoje funciona a sua livraria. Em Junho, logo depois do final do ano lectivo, o Nuno começou a ajudar o Pai. A loja inaugurou-se em Outubro desse mesmo ano.

Os 📖 livros sempre fascinaram o Nuno, mais ainda aquele cheiro e texturas características de livros cuja história vai para além do seu conteúdo. Quando a loja abriu, o contacto com as pessoas que padecem do mesmo mal, o gosto pelos livros e pela leitura, deixaram-no ainda mais fascinado. E ainda mais quando abriu pela primeira vez o catálogo da Biblioteca dos Condes de Azevedo e Samodães, o catálogo da Biblioteca de El-Rei D. Manuel II ou aquele enorme legado, único no mundo, que é o Dicionário Bibliográfico de Inocêncio.

Com muitos anos disto, o Sr. Gonçalves Pai lá foi atirando umas tarefas ligeiras e prazenteiras para o Nuno fazer. E o Nuno, na sua inocência dos 17, deixou-se embrenhar no métier que até hoje, quase trinta anos depois, continua a amar.

O que o Sr. Gonçalves se esqueceu de deixar bem claro ao Nuno, é que 📚 livros são madeira em formato portátil, e que, se um pesa 1 Kg, 1000 hão-de pesar uma tonelada, e 30 ou 40 numa caixa, serão 40 ou 50Kg de peso para 🚛 carregar para o automóvel, descarregar para a loja e depois carregar de novo para uma das estantes.

Ainda hoje, passado todos este tempo, o Nuno, a cada 📦 saco ou caixa que tem de carregar, não consegue deixar de conjurar contra seu Pai que lhe dizia: “Vem para os livros, que é só cultura e pessoas interessantes”, omitindo propositadamente que com os livros vem a ⛏ estiva, e 💪 pesada…

E o Nuno, conhece?

Nasceu com 📚 livros em casa pela mão de seu Pai. Gosta de 🎼 música, que estudou um pouco, mas que abandonou quando, no 8.º ano, os pais viram a pauta atonal com que os professores do Liceu o brindaram no Natal daquele ano.

Mesmo não tendo regressado ao seu estudo, a música nunca o deixou. Não se considera um melómano. Simplesmente ouve-a, sem ordem ou método, e deleita-se. Com excepção do hip-hop, seus derivados e de Bob Dylan, que, por razões diferentes, não consegue escutar sem alguma dor, tem autores favoritos em (quase) todos os estilos, mas acaba sempre no 🎷 Jazz e na chamada 🎻 Clássica.

Recentemente descobriu uma nova paixão, o 🍸 cocktail. Misturar espirituosos e licores para exaltar o que de melhor cada um tem, passou a fazer parte do seu vocabulário. Diverte-se imenso a compor os cocktails e a oferecê-los aos seus 🥂 amigos e familiares quando o visitam.

No entanto, tem tido algumas tristezas, porque se farta de pedir 💰 verba à Ministra das Finanças, que chumba os projectos de compra de uma ou duas pequenas 🍾 garrafinhas necessárias para uma Margarita, um Old Fashioned ou um Vesper. Se alguém, quando escrever à Catarina para tratar de algum assunto, puder interceder pelo Nuno com uma ou duas palavras, ele agradecerá com um Espresso Martini, John Collins ou Irish Coffee.

Começou com isto dos 📚 livros nos idos de 1992, tinha apenas 17 anitos e apaixonou-se pelos verbetes dos irmãos Santos e pela Biblioteca d’El-Rei D. Manuel II. Cerca de 10 anos depois, organizou o seu primeiro leilão e desde essa data não mais largou o encanto dessa forma de apresentar para venda os livros antigos. Insiste, teimosamente, em ser rigoroso e claro nas descrições do estado dos exemplares e a colaccionar os espécimes mais antigos.

Finalmente, não há uma palavra que o defina, há uma pessoa e ela é a Catarina, com quem começou a namorar no dia 11 de Abril de 1994, com quem casou no dia 25 de Março de 2000 e com quem teve três rapazes. Foi ela que o tornou no que é hoje e ele agradecer-lhe-à sempre com uma🧉 Piña Colada.

PS: Não lhe escrevam ou telefonem. Liguem à Catarina, é mais seguro e eficaz.

Já conhece a Catarina?

Talvez a palavra que melhor a defina seja Mãe 🍼 e leva isso consigo para tudo o que faz, incluindo o seu trabalho na 📚 Ecléctica Leilões 📚.

Gosta de croché, de costurar, de cuidar do seu pequeno 🌷 jardim 🌳 e de 🍳 cozinhar 🥘, esta última para benefício de toda a família e amigos quando nos visitam. Tem uma ternura natural e está sempre pronta a ajudar, por vezes até com prejuízo próprio. Acima de tudo, não hesita um segundo quando se trata de abdicar seja do que for pela sua família, em especial pelos filhos.

Foi o Nuno, apesar da resistência e hesitação, que a roubou às outras empresas com que trabalhou. E é o Nuno que a sobrecarrega com tudo o que é administrativo na empresa e na família — o que é um descanso para o Nuno e uma canseira para ela.

Entre os amigos mais próximos já tem alcunha — 💶 Ministra das Finanças 💶.. O Nuno apresenta as ideias e os projectos — por exemplo, quer comprar material de bar (mais sobre isto para a semana). Ela veta-os por falta de verba ou recorrendo a cativações. Curiosamente, nunca esquece um pedido e muitas vezes surpreende ao lembrar coisas já postas no baú dos projectos suspensos que, por sua causa, ganham nova vida.

Ela é o 🧡 coração 💛 que dá a 💪 energia necessária para avançar e crescer, tanto na família como na empresa.

Se querem ver algum assunto tratado, falem com ela e só com ela. Pode levar mais ou menos tempo, conforme a complexidade ou as vicissitudes familiares — estas sempre, mesmo sempre postas em primeiro lugar —, mas resolverá.